Querido leitor,
há uma palavra em coreano que não tem tradução exata: haenyeo. Literalmente: mulher do mar.
Mas literal nunca foi suficiente para explicar o que elas fazem.
Na Ilha de Jeju — um pedazo de terra vulcânica no extremo sul da Coreia do Sul, separado do continente por 90 km de oceano — existe uma tradição que começou há mais de mil anos e continua viva até hoje.
Mulheres que mergulham. Sem equipamento de oxigênio. Sem traje especial moderno. Segurando a respiração por até um minuto, descendo até 10 metros abaixo da superfície, colhendo abóboras do mar, pepino-do-mar, ouriços, abalones — e subindo de volta à superfície com um som que nenhum livro consegue reproduzir.
Um assobio longo, agudo, como se o oceano exalasse pela boca delas.
O que os registros dizem — e o que eles não dizem
Os primeiros registros escritos sobre as haenyeo datam de 1105, durante a era Goryeo. Mas a prática é muito mais antiga do que qualquer documento.
No século XVII, com muitos homens convocados para guerras ou perdidos no mar durante a pesca, as mulheres de Jeju assumiram o sustento das famílias através do mergulho. O governante da época isentou o trabalho feminino de impostos — o que acelerou ainda mais a profissão.
Jeju se tornou, por séculos, uma sociedade matriarcal por necessidade — e por escolha. As haenyeo ganhavam mais do que seus maridos. Administravam as finanças das famílias. Tomavam as decisões.
O que o corpo aprende com o frio
Pesquisadores da National Geographic documentaram adaptações genéticas nas haenyeo: suas arteriolas se contraem mais eficientemente no frio, reduzindo a perda de calor. O colete é mais lento durante os mergulhos. São adaptações que levaram gerações para se desenvolver.
Elas mergulham até 90 dias por ano, até 7 horas por dia. As mais experientes — chamadas sanggun — ensinam as mais novas. O conhecimento passa de corpo para corpo, de respiração para respiração.
Hoje, a haenyeo mais idosa ativa tem mais de 80 anos.
O que está desaparecendo
Em 1960, havia 24.000 haenyeo na Coreia. Em 2020: 3.200. Mais de 65% delas têm 70 anos ou mais. As gerações mais jovens de Jeju partem para o continente, para universidades, para outras profissões.
Em 2016, a UNESCO inscreveu a cultura haenyeo como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade — um reconhecimento bonito, mas que também é um alerta: coisas que precisam de proteção são coisas que correm risco.
"Não existe escafandro no mundo capaz de guardar o que elas sabem. Esse conhecimento só existe enquanto elas existem."
O que fica
Jeju tem cheiro de maresia e tangerina — a ilha é famosa pelas duas coisas. O vento vem do oceano carregando sal e, nos meses certos, o perfume adocicado das tangerineiras que cobrem as encostas.
É um cheiro que mistura o bravo com o suave. O sal com o frutado. O fundo do mar com a superfície ensolarada.
Exatamente como as haenyeo.
Quando a Versalat olhou para Jeju, foi essa tensão que encontrou — entre o que o mar tira e o que ele devolve. Entre o esforço e a leveza. Entre o que desaparece e o que permanece.
Acenda. Inspire fundo. Elas fizeram o mesmo antes de mergulhar.